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1UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBACENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTESDEPARTAMENTO DE HISTÓRIARAPTOS CONSENTIDOS:Afetos proibidos e relações depoder na Paraíba (1880-1910)Rosemere Olimpio de SantanaÁrea de Concentração: História e Cultura HistóricaLinha de Pesquisa: História RegionalJOÃO PESSOA – PBMaio de 2008

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2RAPTOS CONSENTIDOS: AFETOS PROIBIDOS E RELAÇÕES DE PODER NAPARAÍBA (1880 – 1910)ROSEMERE OLIMPIO DE SANTANAOrientadora: Dra. CLÁUDIA ENGLER CURYDissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História,do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba– UFPB, em cumprimento às exigências para obtenção do título de Mestre emHistória, Área de Concentração em História e Cultura Histórica e Linha de Pesquisaem História Regional.João Pessoa – PBMaio de 2008

3F ICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL-UFPBS232rSantana, Rosemere Olimpio de.Raptos consentidos: afetos proibidos e relações de poder naParaíba (1880-1910) / Rosemere Olimpio de Santana. JoãoPessoa, 2008. 145p.Orientadora: Cláudia Engler CuryDissertação (mestrado) – UFPB/CCHLA1- História da Paraíba. 2- Cultura Histórica. 3- Raptosconsentidos. 4- Relações amorosas – ParaíbaUFPB/BCCDU 94(813.3)(043)

4Rosemere Olimpio de SantanaRaptos Consentidos: Afetos Proibidos e Relações de Poder na Paraíba(1880 – 1910)Avaliado em com média .Banca examinadora da DISSERTAÇÃO DO MESTRADOProfª. Dra. Cláudia Engler CuryOrientadoraProfº. Dr. Iranilson Buriti de OliveiraConvidado externoProfª. Dra. Ariane Norma de Menezes SáConvidada interna

5AGRADECIMENTOSNestes últimos dois anos de minha vida, durante a escrita desta dissertação, pude contarcom o apoio sincero de vários amigos (incluindo alguns familiares mais próximos). Apesquisa e a escrita são, muitas vezes, acompanhadas de momentos angustiantes, e a presençade pessoas queridas sempre suaviza esses sentimentos. Mesmo não citando nomes, essesamigos sabem que lhes sou profundamente grata.A confecção do texto contou, ainda, com a interferência enriquecedora e sutil daprofessora Dra. Cláudia Engler Cury, a quem agradeço a forma como possibilitou e respeitouas minhas escolhas bem como as sugestões e mediações ao longo da tecitura desta dissertação.Agradeço também os comentários e as sugestões que provieram da leitura minuciosados professores Drs. Iranilson Buriti e Antônio Carlos Ferreira Pinheiro, no exame dequalificação, da professora Dra. Ariane de Sá, que deu as primeiras contribuições no início daelaboração deste trabalho.Não poderia deixar de mencionar o meu muito obrigada à professora Socorro Cipriano,que acreditou em mim desde a graduação e que contribuiu significativamente para aconcretização desta dissertação.

6SUMÁRIOAGRADECIMENTOS . ISUMÁRIO . IIRESUMO . IIIINTRODUÇÃO . 011- AS PRÁTICAS AMOROSAS E O RAPTO NA PARAÍBA: FINAL DOSÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO XX . 08b. Os raptos e o cotidiano das cidades - o papel das festas . 09c. O papel da família, da Igreja Católica e do Estado na tentativade regular as práticas amorosas e afetivas na Paraíba (séculos XIX e XX) . 23d. Casamentos por interesse: matrimônio, um contrato social . 38e. “Amasiamento”: uma alternativa para o casamento? . 426- RAPTOS CONSENTIDOS: RELAÇÕES ALTERNATIVAS . 47g. Os raptos que não deram certo . 49h. Relações de poder nos casos de rapto consentido . 58i. Raptada por vontade própria: a mulher enquanto sujeito de vontades . 8310- OS RAPTOS E AS MULHERES POR MEIO DE OUTRASLINGUAGENS: MEMORIALISTAS E JORNAIS . 94k. Diálogo com as fontes históricas: processos-crime e memória . 96l. Pérfida ou ingênua - a visibilidade da mulher paraibana atravésdos jornais e de casos de rapto . 108m. Elaboração do rapto consentido como espaço de astúcias e vontades . 121CONCLUSÃO . 125REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . 129

7RESUMONeste estudo, trabalho com o que chamei de “raptos consentidos” na Paraíba, entre asdécadas de 80 e 90 do Séc. XIX e os anos de 1910. A pesquisa apontou para um emaranhadodiscursivo que deu visibilidade às práticas amorosas e às relações de poder, presentes naspráticas dos “raptos consentidos”.Procuramos apreender, mesmo que parcialmente, o cotidiano dos envolvidos citadospelos processos criminais por raptos bem como as redes de relacionamento entre homens emulheres. Assim, fomos percebendo, através de todo o caminho que antecedia os raptos,como esses casais se encontravam, quais táticas utilizavam e que meios e artifícios usavampara convencer um ao outro. Analisando o rapto como lugar de tensões que transcendem osimples fato de resistência a uma ordem patriarcal, mas que também institui uma alternativapara as práticas amorosas. E, ainda, o lugar que ocupavam as mulheres, que se mostraram, aolongo da pesquisa, não apenas como vítimas ou seduzidas, mas também sujeitos de suas açõese desejos. Portanto, os raptos consentidos e toda a teia de relações que se construíram emtorno deles e, ainda, as apropriações que foram feitas pelos indivíduos ao longo da trajetóriados raptos constituíram a questão central deste estudo.A cultura histórica, engendrada pelos processos-crime, pelos romances sobre o temados raptos escritos por memorialistas e os jornais de época, com seus artigos acerca do mesmotema, permitiram problematizar as relações de poder e nelas as estratégias de normatizaçãodas relações amorosas e a formatação de um determinado tipo de casamento com seusrespectivos papéis: os de maridos e esposas ideais. Mas, os raptos também permitiram que sechegasse à “antidisciplina” e à parte das táticas elaboradas pelos envolvidos para escapar dasamarras da ordem, apontando para “as maneiras de fazer”. O trabalho ainda está atrelado alinha de pesquisa em História Regional, o que nos possibiltou apontar problemáticas maispontuais, permitindo a análise mais detalhada do cotidiano, sem, com isso, isolar a temáticade estudo do âmbito nacional.Palavras-chave: Raptos consentidos. Cultura histórica. Antidisciplina. Relações amorosas.Paraíba.

8ABSTRACTIn this study, work which I called the “kidnapping granted” in Paraíba, among the 80and 90 decades of XIX Century and in the year of 1910. The research pointed to a tangleddiscursive giving visibility to the loving practice and relations of power, present in thepractices of “kidnapping granted.”We understand, even if partially, the daily lives of those involved cited for criminalproceedings by kidnappings as well as the networks of relationships between men andwomen. Thus, we see through all the way that preceded the abductions, as these couples met,which tactics were used and the tricks used to convince each other. Analyzing the abductionas a place of tension that transcend the mere fact of resistance to a patriarchal order, but thatalso establishes an alternative to the loving practices. And yet, the occupied by women, whoshowed themselves, throughout the search, not just as victims or seduced but also as subjectsof their actions and desires. Therefore, the kidnapping granted in the whole web ofrelationships that are built around them, and the appropriations which have been made byindividuals along the path of kidnappings were a central issue in this study.The historic culture, engendered by the criminal proceedings, the novels about thetheme of kidnapping written by memorialists and newpapers of that time, with its articlesabout the same subject, which allowed to problematize the relationship of power and thestrategies of normalization of loving relations and the format of a specific type of marriagewith their respective roles: those of ideal husbands and wives. But, the kidnappings alsoallowed in reaching the “undiscipline” and the tactics prepared by concerned to escape fromconstraints of the order, pointing to “the ways of doing”. The work is still tied to the linesearch in Regional History, which allowed ourselves to point to the most punctualproblematics, allowing further analysis of the daily, without, therefore isolate the theme of thenationwide study.Key – words: kidnapping granted, Historic Culture, undiscipline, loving relations,Paraíba.

9IntroduçãoEu vou dar um conselho aTodo pai de famíliaNão consintam suas “fias”Levar fogo as cigarristasNão entregar do tiçãoÉ que corre todo o perigoO moço pergunta a moça--Você quer casar comigoA moça dar uma voltaQue parece parafusoVocê pesa para o papaiSe ele não quiser eu fujoO moça, você me digaOnde vou-lhe esperar- Lá na porteira da esquinaNo pé de maracujáMamãe que grande calorQue eu não posso nem me deitarQueria tomar um poncheVou ver o maracujáA velha lhe respondeuJá prevenindo o futuroEu não sei como MariaAcha as coisas no escuroO que eu digo nesta casaMinha mãe só desconfiaO maracujá pro poncheEu apanhei ao meio diaMá velha entre p’ra dentroQue são horas de deitarEstou esperando MariaFoi ver o maracujáA velha entro p’ra dentroAli as aves MariaQuando saiu pra foraFoi chamando por MariaSe alevante sinhô velhoSe inda hoje não dormiuVamos procurar MariaCom certeza já fugiuO velho saiu de dentroJá com a peia na mão- Venha cá senhora velhaVenha pegar seu quinhão- Meus Deus, que grande tormentoNeste mundo inda eu não viaEu ser uma mulher véiaApanhar por uma “fia”O velho acabou de darFicou com uma peia na mão- Venha cá, Joana e ChiquinhaLevar também o seu quinhão- Se meu pai inda me derPor qualquer uma mana miaEu prometo em suas barbasLhe fazer outra branquinha- Se você arreparasseNossa filha não fugia- Isso mesmo e o que aconteceComa mão que alcovita a “fia. (ROMERO,1945, p.185-189)Esse é um romance em versos, colhido por Sílvio Romero1, que conta a história de umrapaz que conquista e rapta a donzela, filha de um sertanejo. Ele chega de fora e é recebidopela famosa hospitalidade sertaneja. Logo se apaixona pela filha do mesmo, pede paraacender o cigarro e, na hora de apanhar o tição - era comum ter tições acessos no fogo ou notrempe - faz a proposta do rapto. Valendo-se da tática de ir buscar a fruta para fazer um1Embora o romance seja colhido em 1945, o próprio Sílvio Romero afirma que ele já era conhecido oralmentedesde o Século XIX, não especificando exatamente a sua data, por ser um romance “capturado” da tradição oral.

10refresco, a moça ilude a vigilância materna e foge. Quando se dá conta da fuga da filha, a mãeavisa ao sertanejo, que pune a esposa, por achar que ela não havia cumprido com seus deveresmaternos, e a outra filha, para que não faça o mesmo.O romance cantado, muito conhecido no Ceará, fazia parte da cultura oral, e traziatemas com intenções claramente moralizantes. Nessa perspectiva, podemos dizer que osraptos consentidos eram tão comuns que se transformavam em canções. A partir de agora,convidamos o leitor a estreitar laços com o tema desta pesquisa: os raptos consentidos naParaíba entre os Séculos XIX e XX.Os casos de raptos consentidos, segundo a pesquisa, ocorreram nas mais diversasregiões do Brasil. Eles não figuraram apenas nos processos criminais, mas também, nos livrosde memórias, em que os autores se dedicaram a falar do cotidiano familiar. Gilberto Freyre,por exemplo, afirmava que o rapto consentido era comum em todo o país. Vai além dos casosreais e chega até nós, por meio da literatura e da história, como o famoso rapto de Helena deTróia e de Julieta, por Romeu.O que pretendemos discutir nesta pesquisa, mesmo que parcialmente, é uma realidadenão experimentável diretamente. Problematizar o cotidiano de uma época, as redes derelacionamento entre homens e mulheres, cartografar, através de todo o caminho queantecedia o rapto, como esses casais se encontravam, quais as táticas que utilizavam, quemeios e artifícios usavam para convencer um ao outro e, ainda, que lugares ocupavam asmulheres na sociedade onde estavam inseridas. A pesquisa indicou que elas não são apenasvítimas, seduzidas, mas também desejantes e participantes do planejamento e da execução dosraptos.A principal fonte documental da pesquisa - os processos criminais - localizados naprimeira vara de Campina Grande, são o foco deste estudo, que contemplará três dimensõesfundamentais: primeiro, pensar esse tipo de documento também como objeto de significação;segundo, promover o diálogo dessa documentação com outros textos, com outros tipos dedocumentos que também circulavam na época, como os jornais e os textos dos memorialistas,e a terceira dimensão será a de relacionar o seu conteúdo/discurso com a realidade que oproduziu e o envolveu.Nos processos-crime, pude perceber que o dialogismo e o entrechoque das muitasversões contrapostas às vozes dos vários atores sociais que estavam intervindo nessaconfiguração histórica é que fazem desse documento um texto polifônico.A riqueza dos processos criminais está precisamente na natureza contraditória dasvárias versões do crime - nesse caso, o rapto - oriundas de depoimentos do réu, das

11testemunhas das retificações nos depoimentos de um e de outros e dos silêncios reveladores.Um crime que dá origem a um processo abre espaços para inúmeras complexidades, em queserá investigado um suspeito, depois, transformado em acusado e, finalmente, em réu, equando serão ouvidas testemunhas que poderão ser descritas como simpáticas, neutras ouhostis ao acusado.Digno de nota é o fato de que os depoimentos de um indivíduo - réu, acusado outestemunha - poderão ser diferentes em um momento e, em outro, revelar ou ocultar táticas,motivar-se em atitudes preventivas e arrependimentos ou no receio de se veremcomprometidos (tanto no que se refere ao réu como no caso de algumas testemunhas). Alémdisso, há as redes de solidariedade e rivalidade que processos como esses permitem aflorar,bem como sua possibilidade de se chegar até os preconceitos que encontraram um terrenoprofícuo para extravasarem.Por isso, os processos criminais escolhidos para este trabalho são fontes ricas,precisamente porque são dialógicas, repletas de contradições e, portanto, possibilitam quesejam desvendados as constituições discursivas e os jogos de astúcias. A tarefa que foiempreendida nesta pesquisa não pretendeu julgar um crime ou apontar soluções últimas paraos casos do passado, mas pensar nas representações, nas expectativas, motivações produtorasde versões diferenciadas, nas condições de produção dessas versões e captar, a partir dadocumentação, detalhes que serão importantes para o estudo do cotidiano, do imaginário daspeculiaridades do grupo social analisado, das suas resistências, das suas práticas e de seusmodos de vida.Além disso, não nos esquecemos das elaborações jurídico-discursivas nos processoscriminais, discutindo, também, mesmo não sendo o objetivo principal desta pesquisa, o que osmagistrados da época pensavam sobre os códigos que regiam a moralidade, não só na Paraíba,como também no Brasil. É importante enfatizar que nenhum documento é neutro e quesempre carrega consigo a opinião da instituição que o escreveu.Certeau (2000), em seu livro, “Escrita da História”, já alertava que, assim como osdocumentos partem de seu lugar de produção, a própria operação historiográfica também ofaz. Para o autor, ao produzir ou ao fabricar a história, o historiador parte de pressupostoscomo: para quem trabalha, o que produz e ainda de que lugar social ele produz, pois odiscurso historiográfico não é independente da instituição em função da qual ele se organizousilenciosamente. Portanto, a produção historiográfica é o produto de um lugar (CERTEAU,2000, p. 71).

12Outra documentação importante para a pesquisa são as obras dos memorialistasparaibanos que escreveram sobre as histórias de famílias ilustres, narrando alguns casos derapto, por meio das quais foi possível pensar as diferenças entre as duas narrativas: a dosprocessos-crime e a das memórias. Além dessa documentação, empregamos a produção daimprensa, principalmente os jornais que publicavam casos de raptos, e os artigos referentes aosexo feminino.Assim, ao longo da pesquisa, os documentos foram analisados, não como vozes dopassado que precisam ser salvas, uma vez que as experiências citadas nos livros dosmemorialistas e nos processos-crime só se tornaram conhecidas porque o discurso do poder astornou “vivas” e, em algum momento, ele “iluminou”, como bem lembra Foucault (2003), emseu texto sobre “A vida dos homens infames”. Por isso, é impossível reavê-las em si mesmas.Seguindo o caminho das discussões e problematizações acerca das idéias quefundamentam a noção de verdade científica, de objetividade do conhecimento e do próprioconceito de história, podemos afirmar que não há como tomar partido, muito menos, comooptar por um único percurso teórico. Isso porque não existem pré-requisitos essenciais para acompreensão das relações sociais que se aproximem mais da “verdade histórica”, fazendo amédia entre intencionalidades e concretizações sociais, uma teoria que consiga estabelecer opanorama geral de uma época ou de um lugar. Levando em consideração tais questões, apesquisa se pautará nos referenciais teóricos de Michel Foucault, sobre o poder e a disciplina,e de Michel de Certeau, a respeito da antidisciplina.Foucault (2003) concebe os próprios corpos como efeitos de poder e de saber. Corposcodificados, disciplinados através “de um princípio de controle da produção do discurso”, emque são fixados os limites do jogo de uma identidade, através da reatualização permanente dasregras, investidas nas práticas sociais, capturando o indivíduo e inventando o próprio homem.Mas, para ele, isso não significa problematizar o poder em termos de repressão, e sim, derelação, uma vez que ele “possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, umapositividade”, inserida numa rede de relações vivenciadas no cotidiano, que se constitui apartir de uma microfísica, para além da política institucional. (Foucault, 1988, p.18 e 36)Já Michel de Certeau (1994), na medida em que repensa a noção de disciplina deFoucault, tomando o conceito de uma antidisciplina, mostra um campo infinito depossibilidades de apropriação, de “bricolagem” e de “trapaças” das pessoas comuns. Taisinterferências ou “criações”, como ele nomeia, seriam possíveis a partir do campo deautoridade do outro, isto é, nas instituições. Ele mostra como as pessoas se utilizamcotidianamente dos próprios lugares de produção de saberes e investimentos disciplinares para

13construir mecanismos de sobrevivência e como reinventam o cotidiano e a prática doconsumo a partir de suas artes de fazer.Os conceitos de estratégia e de tática também foram operacionalizados nesta pesquisa,com o propósito de se pensar a ação de determinadas mulheres e homens, que inventamformas de driblar, de criar possibilidades de sobrevivência (táticas), face às estratégias dasinstituições. Nessa perspectiva, Certeau (1994) afirma que, na mesma medida em que existeum “dispositivo de poder”, agindo de forma microscópica na sociedade disciplinar, tambémexiste uma rede de ações “microbianas”, que interagem constantemente nesse campo deforças, desautorizando essa mesma sociedade.Esses são, pois, os referenciais teóricos que nortearão a constituição do texto,ajudando a nos posicionar frente ao texto histórico, sem a preocupação de negar asubjetividade intrínseca ao historiador e sem a pretensão de dar voz aos excluídos, porquantopensar a escritura do texto é pensá-lo em termos de artefato. Um texto em que o historiadorrecorta seu tema, seleciona suas ferramentas e escolhe como trabalhar esse material. Nessaperspectiva, tais questões possibilitarão reelaborar novas questões, permitindo um trabalhoflexível, aberto para outros questionamentos. Além disso, tal direcionamento permitirá otrabalho com a documentação escolhida, articulando-a com a discussão teórica sobre o rapto.Assim, com base nas leituras realizadas e na documentação consultada, organizamos oprimeiro capítulo, “As práticas amorosas e o rapto na Paraíba: final do Século XIX einício do Século XX”, com o objetivo de historicizar o crime de rapto, identificando os váriossignificados que foram recebendo em diferentes contextos. Discutimos , ainda, questõesrelativas à cidade, como o espaço em que se dão os raptos consentidos. Nesta pesquisa, esseespaço é Campina Grande, que ganha maior destaque por ser o lugar onde grande parte dosraptos ocorre. No entanto, outras cidades aparecem como palco dos raptos consentidos, porisso também serão motivos de discussão, apontando para as possíveis semelhanças e ligaçõesentre si.Outro aspecto aqui abordado foi o discurso instituído tanto pela Igreja quanto peloEstado, para a construção dos lugares de práticas amorosas, podendo-se constatar o quanto osseus poderes reguladores eram limitados no que se referia aos populares, e como o raptoconsentido poderia dar indícios dessa limitação. Analisamos como o rapto, no contexto doscasamentos por interesse, representava uma alternativa para os indivíduos, afirmando avontade das mulheres, uma vez que, na maioria dos casos analisados, eram elas que tramavamos raptos.

14No segundo capítulo, “Raptos consentidos: relações alternativas”, com base naleitura dos processos criminais por crime de rapto, problematizamos os motivos que levaramos raptos a não darem certo e pudemos cartografar o cotidiano dos indivíduos envolvidos nastramas, apontando para os deslocamentos e as reinvenções que esses sujeitos empreendiam afim de construir outro território para as práticas amorosas. Para isso, questionamos quaisdiscursos esses sujeitos utilizavam para justificar suas fugas e brechas para escapar dasnormas sociais mais rígidas.A análise atenta, portanto, para as complexidades dessas experiências morais, que vãomuito além da dicotomia tradicional de agrupar as práticas individuais, ou coletivas, dentro dosistema analítico que as cataloga, distinguindo as que são contra ou as que são a favor dosistema hegemônico. Sendo assim, as formas de subjetivação dos códigos e valores sociais e apluralidade de perspectivas e ações não precisam necessariamente ser agrupadas em esquemassuperficiais e homogeneizadores.No terceiro e último capítulo, “Os raptos e as mulheres por meio de outraslinguagens: memorialistas e jornais”, apresentamos os casos de rapto, envolvendo ossujeitos pertencentes a grupos mais abastados. Nesses grupos sociais, os motivos que fizeramos raptos consentidos não darem certo são de outra ordem, daquelas presentes entre ospopulares. Enfocamos o discurso dos memorialistas e as diferenças encontradas nesse tipo dedocumentação, o que nos permitiu fazer outra abordagem e problematizar sensibilidades quenão foi possível com os processos-crime.No final do capítulo, procedemos a uma discussão a respeito dos vários discursos quetratam do perfil feminino e da análise de alguns raptos consentidos que eram publicados nosjornais paraibanos. Nesses jornais, a mulher ora é construída de forma positiva, ora de formanegativa, mas, em ambos os casos, questionamos o principal objetivo dessas argumentações:construir um lugar para a mulher, ou seja, formar uma identidade feminina. Enfim, nessepercurso, problematizamos o espaço do rapto consentido a partir das diversas apropriaçõespelos sujeitos – homens ou mulheres - que dele se utilizaram.Nesta perspectiva, este estudo se encontra no interior da discussão sobre CulturaHistórica, visto que essa é a nossa área de concentração. O termo "cultura histórica", aquiutilizado, parte da conceituação do historiador Jacques Le Goff. O sentido desse termo émuito específico e não visa sobrepor a história às demais áreas de conhecimento que lidamcom a cultura. O termo se estabelece numa busca pela nomeação de tudo aquilo que, nassociedades, constitui ou produz práticas e/ou discursos que se combinam no estabelecimentoda relação de uma historicidade com o passado. Ou seja, o próprio sentido da história, nas

15sociedades, é uma construção que responde a uma cultura, esta que também é constituídahistoricamente (RIBEIRO, 2001, p. 12).A Cultura Histórica, produzida pela documentação, que envolve casos de raptosconsentidos, permitiu-nos problematizar os sentidos atribuídos às práticas amorosas da épocae cartografar as relações de poder engendradas, no cotidiano dos envolvidos, apontando paraos momentos de apropriação e ressignificação de uma ordem normatizadora.Este trabalho também se insere na linha de pesquisa da História Regional, que estudaum espaço específico e as relações sociais que nele se estabelecem. Vários são os argumentosem defesa do pensamento histórico a partir da região, o qual permite a exposição dasdiferenças, que viria numa contracorrente da homogeneização causada pelas grandes síntesesglobais e nacionais (PAIM, 2006, p. 123).Amado (1990, p. 8) define região como uma “categoria espacial, que expressa umaespecificidade, uma singularidade dentro de uma totalidade: assim região configura umespaço particular, dentro de uma determinada organização social mais ampla, com a qual searticula”.Portanto, ao trabalhar com o regional, discutimos sobre novas óticas de análise donacional. O regional apresenta o cotidiano, possibilitando problemáticas mais pontuais epermitindo ao historiador uma análise mais detalhada de determinada sociedade, sem, comisso, isolar a temática de estudo. Foi a partir dessa perspectiva que trabalhamos os casos derapto consentidos, detendo-nos nas singularidades que cada caso apresentou.

16CAPÍTULO IAS PRÁTICAS AMOROSAS E O RAPTO NA PARAÍBA:FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO XX

17Falar das práticas amorosas no Brasil, principalmente, nas décadas de 1880 a 1910, étrabalhar com um período repleto de mudanças, dentre as quais, podemos localizar atransferência dos poderes reguladores da Igreja Católica para o Estado. Mas, para além dessasujeição social, as práticas amorosas estavam recheadas de invenções e criações, burlando einventando outra ordem, construindo um cotidiano próprio.Importante também é discutir a própria prática de rapto. Para isso, apropriamo-nos dotexto de Vigarello (1998), em que, ao problematizar o rapto, nos Séculos XVI e XIX, elepercebe que estava relacionado à violência sexual. A ofensa não era à vítima, que sofrera aviolência, mas sim, ao marido, pai ou tutor, pois a mulher não figurava como sujeito. Noentanto, a partir do Século XVIII, já se percebem alguns deslocamentos, razão por quecartografar a prática do rapto associada ao espaço da pesquisa, a Paraíba, também fará partedessa discussão.Convém enfatizar a importância de analisar como as práticas amorosas eram reguladaspela Igreja e pelo Estado, porquanto tais normas deveriam ser seguidas pela sociedade, o quenem sempre acontecia, principalmente, para as famílias vinculadas às classes populares, paraquem o casamento não era comum e cedia lugar ao concubinato, sem falar nos casamentosarranjados, que aconteciam quando havia interesses financeiros em jogo.Nesse sentido, trata-se de discutir em que condições históricas as práticas amorosasforam engendradas na Paraíba, como os indivíduos reagiam às normas estabelecidas pelaIgreja e pelo Estado e, ainda, como desenvolviam outros meios para outros tipos de práticasamorosas, que não as aceitas como adequadas.1.1 Os raptos e o cotidiano das cidades - o papel das festasÉ interessante historicizar o termo rapto, tendo em vista que esse conceito pode tersofrido apropriações e ressignificações ao longo do tempo. Sendo assim, as problematizaçõesacerca desse tema têm início no ancien regime, com o trabalho de Vigarello (1998). Nestapesquisa, também analisamos as possíveis ressignificações que a prática do rapto consentidopoderia ter sofrido na sociedade paraibana do final do Século XIX e início do Século XX. Aofalar dessa possível ressignificação do rapto consentido na Paraíba, também é importantediscutir o espaço físico onde acontece a maioria dos raptos analisados: a Paraíba, emespecial,Campina Grande. Portanto, analisamos o espaço urbano das cidades, bem comoalgumas características pertencentes à zona rural.

18Em 1708, no ancien regime, uma jovem de Arles acusa um certo Joubert de tê-laconhecido à força na casa do pai da dita moça (VIGARELLO, 1998, p. 53). Analisando essefato e tendo que classificá-lo como crime, facilmente diria que se trata de um estupro. Isso,levando em consideração o nosso contexto social atual. No entanto, tal crime foi classificado,na época, como rapto, mesmo a vítima estando em sua casa. O próprio termo rapto passou portransformações ao longo da história. Por isso, problematizar essas descontinuidades e tambémas possíveis continuidades é fundamental para cartografar o rapto no período que aquianalisamos.Vigarello (1998), em sua pesquisa sobre a história do estupro, entre os Séculos XVI eXX, analisa, também, a mudança de sentido do termo rapto. Segundo o autor, o rapto estavaassociado, no ancien regime, ao estupro. Isso porque raptar significava tomar posse, arrebatar,tomar o corpo da mulher para si, já que ela não tinha domínio sobre o próprio corpo. Oestupro não significava uma ofensa direta à

F ICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL-UFPB S232r Santana, Rosemere Olimpio de. Raptos consentidos: afetos proibidos e relações de poder na Paraíba (1880-1910) / Rosemere Olimpio de Santana. João Pessoa, 2008. 145p. Orientadora